quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Uma casa de espelhos

    Ele quebra o espelho pelo medo e pelo mistério. Será que é possível além do espelho destruir o reflexo contido? Será que é possível quebrar uma pessoa e remontá-la de novo, mas montá-lo diferente, montá-la com tudo que não se tem e ainda assim, manter o que se tinha sem perdas? 
    Dos cacos no chão ele via partes de si. Os olhos castanhos que tanto se orgulhava por achá-los belos, mas que ao mesmo tempo transmitiam a confusão  que se passava em sua mente. O cabelo
cujos dedos viciados tocavam-no a cada minuto pela necessidade de se achar atraente. Cada pedacinho de espelho detalhando seus traços enquanto lembra-o  da pessoa que é.
     Queria mudar quem era, co-
meçar do zero. Dessa vez se olharia menos no espelho, roçaria menos seus cabelos, faria mais o que lhe dava prazer, seria tudo aquilo que não poder ser. Mas parado ali, encarando os cacos do que antes era ele, se deu conta que mesmo juntando todos os pedaços, o espelho jamais seria o mesmo, ele estaria diferente, modificado, atingido. O estrago estava feito e isso não era ruim. A ação de transformação estava feita. O que restava agora era reerguer a pessoa quebrada do espelho, pois sempre haverá no seu reflexo a lembrança do anseio, da vontade, do início da mudança.
    Uma vez lhe foi dito que muitos passam uma vida reformando cômodos de suas casas, mas o que realmente é difícil é derrubar essa casa e construir do zero. Com isso em sua cabeça ele visualizou seu espelho, sua casa, e dos cacos montou o espelho quebrado, enquanto segurava em sua mão uma marreta para colocar abaixo o que antes era ele.

sábado, 21 de julho de 2012

Angústia e recompensa.

  Quando você chegar não precisa dizer nenhuma palavra. Não precisa nem abrir a boca. Vou simplesmente te olhar. Procurar reações dentro de mim. Terei tantas emoções se movendo em minhas entranhas que não sei o que farei. Ficarei parado? Sorrirei? Correrei ao seu alcance? Não sei e não importa. Quero esse momento mais que tudo. Quero lembrar de cada
detalhe, cada movimento, cada plano de fundo da
sua chegada. Quero o tempo parado, congelado.
Muita coisa pode ter acontecido nesse tempo, você pode estar diferente, em aparência e emocional. Eu espero isso, pois mudanças são boas. Vislumbro esse momento a muito tempo já. Desde sua partida.
  Quero em seguida o mais profundo abraço. Por mais careta que possa aparentar, quero um abraço tão forte e tão desesperado que me sufoque. Que demonstre tudo que se tem. Não desejo poucas coisas. Quero o tudo. Quero tudo ao mesmo tempo.
Quero demorar nesse abraço como a eternidade que abraça o universo. Quero olhar dentro dos seus olhos. Manter o silêncio. Provar com o olhar toda a saudade, ternura, carinho, e o que mais estiver transbordando. E por ultimo um beijo gentil, um beijo de alívio, uma compaixão transparecida em um tocar de lábios; e nesse instante todo o medo se esvai, toda a falta desvanece. Um sorriso desponta de canto a canto da minha face. Como um sofro de vida, respiro normalmente de novo. E aí percebo que tudo está bem. Que meu sentido voltou. E eu estou feliz. De novo.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Quando o tudo se transforma em nada.

  No começo eu me senti sufocado, como se centenas de mãos apertassem meu pescoço. Nenhum som saia. Nenhum ar entrava. Uma agonia transformando-se em aceitação. Não conseguia tirar as mãos do meu pescoço por mais que tentasse. Era como uma pressão, a ponto de explosão cerebral. Senti como se minha mente estivesse embaixo das patas de um elefante. Tentei não me importar no começo, mas não é uma tarefa fácil. Parte de você quer que se importe.
    A primeira coisa que surge na mente é a fuga. Qualquer lugar longe dali, longe de qualquer pessoa, de qualquer problema, de qualquer existência humana que possa te lembrar. Um lugar onde a respiração é livre de qualquer pretensão. Onde o simples fechar de olhos se torna um êxtase momentâneo intenso.
  Você observa ao redor. Se pergunta o "porque de estar ali". Depois, o "por que não continuar ali". Senta ali mesmo onde está. Respira tão calmamente de uma forma transcendental. O mundo não exste mais pra você naquele instante. A única sensação presente é a brisa ao seu redor, como uma dança acolhedora. Te envolve e protege. Você se rende nesse momento. Se entrega de tal forma que livra-se de tudo. A mão passeia calmamente na relva ao redor.
  Um sorriso banal surge nesse minuto. Tudo parece cômico de repente. Nesse minuto, nessa fração de tempo, nada mais lhe é importante. Nada mais lhe diz respeito. Você não se importa mais. Por mais que tenha que resolver os problemas quando voltar, não te serão mais tão pesados. Seu peso é nulo. Quase inexistente. E mesmo que voltem a lhe cair aos ombros, você sabe que sempre terá um lugar para onde ir. Um lugar onde tudo é nada e nada é tudo. Um lugar seu. Somente seu.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

E todo mundo é você? Ou não?

   Você já parou pra pensar em quantas pessoas passam pela sua vida? Amigos, colegas, conhecidos, romances. Já parou e percebeu quantas pessoas estiveram ao seu lado e quantas nem se importaram? Aquelas que estiveram no seu aniversário de 14 anos. Aquelas que estiveram com você quando estava
com catapora.
  Que ao lhe ver de longe, saíram correndo ao seu encontro. Que estavam ao seu lado quando um parente faleceu. Pessoas que simplesmente entraram na sua vida e saíram sem aviso. Que fizeram do seu mundo um universo paralelo e depois te derrubaram na realidade novamente. Que serviram apenas como um passatempo para aquele momento. Alguns que mudaram sua vida de um jeito que nem fazem ideia.
  Agora me diga. Qual dessas pessoas você vai querer lembrar? Quantas delas você poderá dizer que sempre se lembrará? Pois eu te digo. Lembre-se de todas, mesmo que algum empecilho tenha
surgido entre vocês.
  Não faça isso para ser popular ou manter status social. Lembre-se delas pois te ajudaram a se tornar quem você é hoje. Complicaram seu caminho ou melhoraram, não importa. O que você é hoje, em parte, é por causa dessas pessoas. Então sinta orgulho de quem se tornou e das pessoas que você conheceu. Ame-as, odeie-as, mas nunca se esqueça delas. Pois elas são parte de você e sempre serão. Tudo o que precisa aprender é a ver a beleza por trás de tudo. E viver. Apenas isso.




quinta-feira, 5 de abril de 2012

O mundo para e o coração se abre.

  Pense em um momento feliz. Aquele momento em que tudo para ao seu redor. Os sons a sua volta se tornam serenos e tranquilos, impondo uma melodia harmoniosa e intensa. As palavras alheias lhe dirigidas se apagam, como se uma dança existisse entre seu corpo e sua mente. Aquele sorriso bobo aparece só de visualizar uma pessoa em seus olhos. Um riso singelo, seguido de um fechar de olhos. Uma descrença de que algo ou alguém possa ter te deixar daquele jeito surge. Surge a dúvida seguida da esperança. E numa luta épica entre ambas, esse momento surge. Aquele momento em que a esperança prevalece, e tem-se a certeza de que uma felicidade, de uma mutualidade está a espreita. Como se estivessem a beira de uma ponte, a um salto de algo novo, algo surpreendente e assustador.
  Esse momento é aquele em que nada pode mudar. Esse momento não sairá de sua cabeça. Caso já o tenham, guarde-o a sete chaves. Cerque-o de seguranças e não deixe que ninguém o desvaneça. Ninguém será capaz disso, a não ser que se enfraqueça, pois acredite, irão tentar te fazer esquecer.
  Uma vez me disseram que poucas vezes, esse momento surge. Mas não é verdade. Aquele momento reunido com seus amigos, em que você se pega olhando para eles e perguntando de onde tirou tanta sorte. Aquele almoço na mesa com a família em que toda a sua vida passa pelos seus olhos, e essas mesmas pessoas estavam lá, em todos os instantes. Quando se conversa com alguém que você gosta e fica parado um tempo apenas observando os pequenos detalhes, traços e a beleza dela; ou aquele abraço, quando os corações interligados encontram um ritmo para baterem junto. Esses momentos são muitos e únicos. Não faça pouco caso deles.
  Pense em um momento feliz. Pense nas pessoas que estiveram presentes. Essas pessoas continuam com você? São nelas em quem pensa quando acorda? São elas em que você pode confiar? Se para as perguntas, a resposta for sim, pare e analise ao seu redor. A felicidade já está na sua vida. Você apenas precisa perceber isso.

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  Mais uma vez esse post vai em homenagem á alguém. Por mais que tenhamos nos afastado, ela fez a minha vida ter os melhores momentos inesquecíveis. Tenho um afeto estrondoso por ela, e nunca deixarei de estar por perto. Amo você. Parabéns Ana Paula Scaggion.
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sexta-feira, 30 de março de 2012

O instante e a volta

  Já aguardava a mais de 30 minutos naquela estação. O bilhete em minha mão já demonstrava sinais de excitação e impaciência, com a enorme quantidade de amassos e dobraduras. Mantive a concentração no asfalto. É meu aniversário hoje e de certa forma espero algo para fazer. Mas do que seria o dia que recebe o meu nome, sem a presença das pessoas que eu quero que estejam comigo? Passei muito tempo longe. Perdi coisas. Ganhei coisas. Não me arrependo. Mas tudo que quero nesse momento é ver os braços abertos de minha mãe ao me receber e de meus amigos à me carregar para qualquer lugar, pois sei que com eles eu estarei bem.
  O ônibus chegou. Observei sua lentidão na parada, meio duvidoso da necessidade desse movimento, mas consentido. Nove pessoas desceram, uma delas com um bebê no colo, e em seguida puseram-se a pegar suas malas. Caminhei em direção ao ônibus. Não senti mais
ninguém ao meu redor. Entreguei o bilhete ao motorista. Ele simplesmente fez um furo e observou. Desabei-me em duas poltronas do lado direito próximas do ultimo lugar. Ninguém mais entrava. Acomodei-me com os joelhos retraídos. Coloquei os fones de ouvido e liguei o som. Kate Nash cantando "Merry Happy" tocava naquela momento. Tranquilizei-me. Só o que bastava agora era voltar pra casa. Não me importei mais com faculdade, com trabalhos, com horários. Só restava a distância.
  Uma moça entrou no ônibus toda apressada, como  se tivesse perdido hora e saísse correndo de casa. Imaginei se suas malas estavam bem feitas. Depois dela mais duas pessoas entraram e sentaram na frente. Um casal possivelmente. Observei-os de longe criando histórias e acontecimentos em suas vidas. Talvez a jovem estivesse voltando para alguém. Um namorado, noivo, ou mesmo família. O casal estava feliz demais, provavelmente voltava para a família. Quem sabe com uma novidade que viria em 8 ou 9 meses.
  Com o som ligado, senti a vibração do motor do ônibus. Fechei os olhos por um momento. Vi-me chegando na estação de casa, minha família me esperando. Mais a noite, meus amigos me buscando pra um rolê onde quer que fosse. Esses são os momentos que eu sempre vou me lembrar. Aqueles momentos em que eu sei, que haja o que houver, sempre existirá alguém para se lembrar de mim. Alguém que me dará os melhores momentos possíveis. As melhores recordações.
  O ônibus saiu. abri meus olhos novamente e fiquei a observar o caminho. Agora tudo estava bem. Nenhum problema. Estava voltando pra casa. Estava voltando para as pessoas certas. Enfim, a definição de LAR me fazia sentido agora.

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    Post especial de aniversário para uma das melhores pessoas existentes e mais dedicadas que já pude conhecer. Tive a felicidades de tê-lo como amigo, mas isso era pouco. Ele tinha que se tornar melhor amigo.
Desejo a você nada menos que o melhor, pois sei que merece disso pra mais. Qualquer coisa, qualquer problema, quero que você tenha a certeza absoluta de que pode contar comigo.
    Um Feliz Aniversário á Filipe Emerik (Vida de Solteiro). Te amo guri. Felicidades
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terça-feira, 27 de março de 2012

Quando seu coração se despede.

  Era como se a água levasse tudo embora. Pancadas e pancadas retirando toda e qualquer crosta de ódio e raiva ali presentes. Apenas a turbulência e o frio restavam agora. Minha mente enclausurada num mundo paralelo. Tudo passava na minha cabeça. Tudo que eu já passei. Tudo que eu poderia passar. Como tudo seria se eu tivesse feito algo diferente. Não me arrependo de nada do que fiz, mas simplesmente não suporto isso. Machuca demais. É como marcar minha mente e meu coração com ferro vivo incandescente.

  Meus braços criando formas circulares na água, já demonstravam exaustão. Minhas pernas descansavam imóveis, inúteis. Com os olhos fechados eu podia sentir tudo ao meu redor. A água acalentava meu corpo, como se já fossem amigos a muito tempo. Meus dedos enrugados condenavam o tempo em que estava lá, mas isso passava despercebido, pois o tempo era algo que não me importava mais.
  A roupa colada dificultava meus movimentos; pesavam 10 vezes mais que o normal. Um turbilhão surgiu novamente e me vi envolto em bolhas e pequenos rodamoinhos.
  Minha mente girava e girava como numa brincadeira de roda. Não sabia mais o que fazer. Estava cansado, mas não de uma forma física. Meu coração já estava cansado de tudo. Minha cabeça cansada de todos. Uma dor no peito que ninguém fazia ideia que existia, e nem sequer se preocupavam em saber. Tudo tinha sido tão trabalhoso e tão difícil por nada. Como se uma vida inteira tivesse sido despejada na merda de um lixão. Meu corpo todo estava cansado. Eu já não me esforçava mais para ficar flutuando. Meu corpo cedeu, junto de minha mente, meu coração e minha alma. Abri os olhos. A imensidão não me assustou. Pelo contrário. Senti que finalmente algo estava ali comigo, me ajudando e me acompanhando. As poucas bolhas soltavam. Eu estava totalmente entregue, mas não arrependido. Era como se todos os problemas apenas desaparecessem, e tudo tivesse se tornado simples e acolhedor. Fechei os olhos. Observei a campina florida em minha mente. Me despedi. Como numa projeção astral observei meu corpo. Parecia tranquilo, sereno, entregue; em paz. E desvaneci.
  Muito se falou de mim por um tempo. Aonde eu teria ido? Por que não avisei ninguém? Se eu estaria vivo, se estaria feliz. Mas logo se esqueceram também, por que é assim que a natureza procede. Ela mancha, mas depois limpa.