sexta-feira, 30 de março de 2012

O instante e a volta

  Já aguardava a mais de 30 minutos naquela estação. O bilhete em minha mão já demonstrava sinais de excitação e impaciência, com a enorme quantidade de amassos e dobraduras. Mantive a concentração no asfalto. É meu aniversário hoje e de certa forma espero algo para fazer. Mas do que seria o dia que recebe o meu nome, sem a presença das pessoas que eu quero que estejam comigo? Passei muito tempo longe. Perdi coisas. Ganhei coisas. Não me arrependo. Mas tudo que quero nesse momento é ver os braços abertos de minha mãe ao me receber e de meus amigos à me carregar para qualquer lugar, pois sei que com eles eu estarei bem.
  O ônibus chegou. Observei sua lentidão na parada, meio duvidoso da necessidade desse movimento, mas consentido. Nove pessoas desceram, uma delas com um bebê no colo, e em seguida puseram-se a pegar suas malas. Caminhei em direção ao ônibus. Não senti mais
ninguém ao meu redor. Entreguei o bilhete ao motorista. Ele simplesmente fez um furo e observou. Desabei-me em duas poltronas do lado direito próximas do ultimo lugar. Ninguém mais entrava. Acomodei-me com os joelhos retraídos. Coloquei os fones de ouvido e liguei o som. Kate Nash cantando "Merry Happy" tocava naquela momento. Tranquilizei-me. Só o que bastava agora era voltar pra casa. Não me importei mais com faculdade, com trabalhos, com horários. Só restava a distância.
  Uma moça entrou no ônibus toda apressada, como  se tivesse perdido hora e saísse correndo de casa. Imaginei se suas malas estavam bem feitas. Depois dela mais duas pessoas entraram e sentaram na frente. Um casal possivelmente. Observei-os de longe criando histórias e acontecimentos em suas vidas. Talvez a jovem estivesse voltando para alguém. Um namorado, noivo, ou mesmo família. O casal estava feliz demais, provavelmente voltava para a família. Quem sabe com uma novidade que viria em 8 ou 9 meses.
  Com o som ligado, senti a vibração do motor do ônibus. Fechei os olhos por um momento. Vi-me chegando na estação de casa, minha família me esperando. Mais a noite, meus amigos me buscando pra um rolê onde quer que fosse. Esses são os momentos que eu sempre vou me lembrar. Aqueles momentos em que eu sei, que haja o que houver, sempre existirá alguém para se lembrar de mim. Alguém que me dará os melhores momentos possíveis. As melhores recordações.
  O ônibus saiu. abri meus olhos novamente e fiquei a observar o caminho. Agora tudo estava bem. Nenhum problema. Estava voltando pra casa. Estava voltando para as pessoas certas. Enfim, a definição de LAR me fazia sentido agora.

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    Post especial de aniversário para uma das melhores pessoas existentes e mais dedicadas que já pude conhecer. Tive a felicidades de tê-lo como amigo, mas isso era pouco. Ele tinha que se tornar melhor amigo.
Desejo a você nada menos que o melhor, pois sei que merece disso pra mais. Qualquer coisa, qualquer problema, quero que você tenha a certeza absoluta de que pode contar comigo.
    Um Feliz Aniversário á Filipe Emerik (Vida de Solteiro). Te amo guri. Felicidades
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terça-feira, 27 de março de 2012

Quando seu coração se despede.

  Era como se a água levasse tudo embora. Pancadas e pancadas retirando toda e qualquer crosta de ódio e raiva ali presentes. Apenas a turbulência e o frio restavam agora. Minha mente enclausurada num mundo paralelo. Tudo passava na minha cabeça. Tudo que eu já passei. Tudo que eu poderia passar. Como tudo seria se eu tivesse feito algo diferente. Não me arrependo de nada do que fiz, mas simplesmente não suporto isso. Machuca demais. É como marcar minha mente e meu coração com ferro vivo incandescente.

  Meus braços criando formas circulares na água, já demonstravam exaustão. Minhas pernas descansavam imóveis, inúteis. Com os olhos fechados eu podia sentir tudo ao meu redor. A água acalentava meu corpo, como se já fossem amigos a muito tempo. Meus dedos enrugados condenavam o tempo em que estava lá, mas isso passava despercebido, pois o tempo era algo que não me importava mais.
  A roupa colada dificultava meus movimentos; pesavam 10 vezes mais que o normal. Um turbilhão surgiu novamente e me vi envolto em bolhas e pequenos rodamoinhos.
  Minha mente girava e girava como numa brincadeira de roda. Não sabia mais o que fazer. Estava cansado, mas não de uma forma física. Meu coração já estava cansado de tudo. Minha cabeça cansada de todos. Uma dor no peito que ninguém fazia ideia que existia, e nem sequer se preocupavam em saber. Tudo tinha sido tão trabalhoso e tão difícil por nada. Como se uma vida inteira tivesse sido despejada na merda de um lixão. Meu corpo todo estava cansado. Eu já não me esforçava mais para ficar flutuando. Meu corpo cedeu, junto de minha mente, meu coração e minha alma. Abri os olhos. A imensidão não me assustou. Pelo contrário. Senti que finalmente algo estava ali comigo, me ajudando e me acompanhando. As poucas bolhas soltavam. Eu estava totalmente entregue, mas não arrependido. Era como se todos os problemas apenas desaparecessem, e tudo tivesse se tornado simples e acolhedor. Fechei os olhos. Observei a campina florida em minha mente. Me despedi. Como numa projeção astral observei meu corpo. Parecia tranquilo, sereno, entregue; em paz. E desvaneci.
  Muito se falou de mim por um tempo. Aonde eu teria ido? Por que não avisei ninguém? Se eu estaria vivo, se estaria feliz. Mas logo se esqueceram também, por que é assim que a natureza procede. Ela mancha, mas depois limpa.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Espelho quebrado



Não sei se é certo dizer isso
Ou simplismente pensar nisso
Mas as vezes é bom querer desaparecer
Fingir que tudo não é nada
Que o fantasma antes visto
Não era nada além de você mesmo
Que um espelho errônio mostra
De uma de suas faces quebradas
Não você
Não um nada
Apenas o medo de não existir

Quem sabe viver não seja tão ruim
Quem sabe o único erro disso tudo,
é não saber viver direito.
Talvez seja esse erro que atrapalhe tudo no fim
Talvez seja esse erro que o conforto na noite intrépida
Talvez esse erro seja você
Talvez seja eu.

Universo e você


Busquei no mar um universo inteiro
Só pra distinguir a cor dos teus olhos
De florestas quentes a desentos frios
Tudo pra achar o sabor dos teus lábios
Fiz do céu uma parede horizontal
Pra buscar no topo, uma lua branca pra te dar
Não, não foi um momento quieto
Nem o silêncio da grama verde
Não foi o barulho da tempestade
Nem o sereno da manhã
Não achei comparação
Não encontrei algo parecido
Não achei o que seria você
Apenas encontrei a calmaria
Tranquilidade
Paciência
E quando vi seu rosto novamente
Aquele esplendor reluzente da sua face
Queria que você soubesse
Tudo para que você saiba
Que eu buscaria um novo mundo
Só pra te fazer um colar


sábado, 3 de março de 2012

Começar de novo


  Havia sim de fato um garoto, normal a olhos comuns, inteligente, bonito, diferente. Jovem, sentia que sua vida precisava de um significado. Não sabia ao certo onde encontrar. Sua vida era sempre rotineira de baboseiras e necessidades humanas. Olhava para tais coisas imaginando a importância delas. Se algum dia serviriam para alguma coisa além de sua existência mundana.
  Nunca havia se apaixonado. Suas relações nunca foram baseadas nesse sentimento; apenas pela necessidade de não estar sozinho. Em seu coração, sabia que a primeira vez que isso acontecesse seria épico, como um fenômeno que todos iriam lembrar. Algumas coisas poderiam mudar, outras não. Seus olhos ansiavam por mudanças. A data era dois de março do ano de dois mil e onze. Seu coração batia cada pulsação como se cronometrasse cada segundo necessário para fazê-lo valer-se de um momento único. Ele sabia que algo estava para acontecer, e estava esperando o momento chegar.
  Sua cabeça sempre fora sobrecarregada. Como se um excesso de informações a sua volta fossem absorvidas pelo buraco negro da sua mente. Tinha muitas perguntas, mas poucas respostas. Perguntou uma vez a uma lagarta na tentativa absurda de alguma coisa acontecer. Mas ao que parecia apenas Alice poderia saber do que se tratava. Sentia a brisa do vento acariciar seus cabelos. Não eram compridos, nem muito curtos, mas de um tamanho certo, que faziam sua pontas douradas chegarem a brilhar conforme o balanço do vento e o alcance da luz do sol. Sentia-se livre de certa forma. A pressão era algo constante, mas condensado; como se apenas o sentisse próximo, não sobre ele.

  Eram oito e dezesseis da noite do dia dois. Todos ouviram a notícia no rádio. Hoje um evento épico aconteceria. Da janela do seu quarto o garoto conseguia sair para o telhado. Um ponto inteligente de fuga. Ficava no telhado horas de seus dias pensando em tudo. Era sim seu lugar preferido no mundo. Deitado com os olhos atentos no céu estrelado ele esperou. Talvez se sentiria um pouco melhor. Algo para aliviar aquele vazio. Aquela ausência.
  O céu não estava completamente estrelado. A escuridão e a lua minguante tomavam de completo a imensidão estelar. Pensou por alguns minutos em toda a sua vida. Todas as coisas e pessoas que dependiam dele; todas as pessoas que nunca o valorizavam. Todos aqueles que um dia talvez se lembrariam dele. Tudo que queria era que alguém dissesse que tudo ficaria bem.

  Ele o viu surgindo por sobre sua casa. Aquela luz longe ao seu alcance brilhou em seus olhos. Um feixe de luz incandescente que se movia lentamente sobre a escuridão da noite. Sentiu um fogo ardendo por sobre seu corpo. Uma vontade de felicidade; de sorrir. Aquela imensa bola de gás e gelo despertara de certo modo, algo nunca antes sentido pelo garoto. Um sentimento guardado que ele não sabia dizer com exatidão o que era. E a partor daquele instante o garoto começoua  ver tudo de um jeito diferente.

  O garoto viu um cometa e sentiu que sua vida toda começou a fazer sentido. Uma paixão surgiu pra completar aquele buraco vazio do jovem rapaz. Um começo novo era planejado ali. E quando o cometa foi embora, esperou a vida inteira para que ele voltasse novamente.